terça-feira, 15 de novembro de 2011

Bermuda Floral

Autor: Jonas da Cruz Amaral

Um casal de namorados está comemorando dois anos de namoro. O namorado pega o celular, liga para a namorada a cobrar, e marca um encontro em um desses restaurantes elegantes. Coisa de granfino. De quem realmente tem bala na agulha.

Veste uma bermuda floral, uma camisa “P”, emprasta o cabelo de gel, coloca a carteira no bolso, e sai apressado, sem tomar banho, para se encontrar com a sua amada.

Ela, toda produzida. Elegante. Sensual. Batom vermelho nos lábios. Um lindo vestido preto, com um discreto decote. Banho tomado.  Perfumada. Seu cheiro era uma mistura de flores, agradável.

O namorado chega com vinte minutos de atraso e lhe dá um fervoroso abraço, seguido de um beijo murcho, sem nenhuma pegada.

“Credo Tatá, você está fedendo a alho”, diz ela fazendo cara de nojo. “Que ridículo! Você não toma jeito mesmo. Olha como você está vestido! Me convida para vir jantar nesse restaurante chique e vem desse jeito: bermuda floral e camisa cá no umbigo. Tenha santa paciência.”

“Calma meu amor”, diz ele beijando-a na boca.

“Sai pra lá”, esbraveja, dando um empurrão no namorado e limpando a boca com a mão. “Que bafo de cebola!”

“Calma Jheny. Eu posso voltar em casa e tomar banho.”

“Então vai logo. E vê se vem com uma camisa melhor.”

“Pode me esperar gata, eu já estou voltando.”

Quinze minutos depois.                                    

Agora sim estava pronto. Alinhado. Nos trinques. Um verdadeiro lorde inglês. Camisa social, gravata, sapatos muito bem engraxados, e... peraí! Bermuda floral! Onde já se viu uma coisa dessas! Onde está a calça? Onde já se viu um sujeito em sã consciência vestir bermuda floral para ir a um restaurante chique com a namorada?!

“Olha Jheny, eu não estou lindo! Pode dizer.”

Ele não era um surfista. Minas Gerais não tem nem mar.

“Pelo amor de Deus Tatá! Eu não aguento mais! Vai trabalhar de bermuda floral, vai à igreja de bermuda floral, no cinema... Tudo usando essa maldita bermuda. Você não tem calça, não?”

“Eu não tenho só essa bermuda. Você sabe muito bem disso. Tenho um monte. Variadas cores e estilos”, ele falou meio abobalhado, que para Jheny não era nenhuma novidade. “Jheny, meu amor, querida do meu coração; Iemanjá do meu mar. Vamos entrar logo nesse restaurante.”

A sereia de Tatá é firme:

“Eu não entro nesse restaurante com você vestido desse jeito nem morta.”

“O quê que há de errado comigo?”, o surfista sem prancha pergunta passando os olhos pela sua roupa. “Você me mandou trocar de camisa e eu troquei. Coloquei até gravata.”

“E essa maldita bermuda?! Você não trocou!”, fala nervosa, controlando-se para não voar em cima do namorado e arrancar aquele colar de pai de santo que ele exibe no pescoço.

“Você não falou da bermuda. Só mandou que eu trocasse de camisa.”

“Meu bem, eu não sei se você sabe, mas não se usa bermuda (ainda mais floral) com camisa social.”

“Vamos parar de discutir, minha sereia. Se você não quer entrar no restaurante, então vamos comer um cachorro-quente na barraquinha da praça.”

“É. Fazer o quê! É o único programa que está a sua altura.”

Andaram por algum a tempo até chegarem à praça.

Crianças andavam de bicicleta, patinete, velotrol, patins.

O casal se aproximou da barraquinha de cachorro-quente. Mesinhas de plástico estavam ao redor da vã do sujeito.

Tatá diz super descontraído:

“Aí chefia, manda um hot dog completo com duas salsichas, no capricho. E uma latinha de Coca. Mais dois canudos, por favor, meu chapa.”

“O meu pode ser sem catchup”, diz Jheny, abraçada com o namorado.

“O meu é completo. Pode chuchar bastante maionese. É gotosão!”   

Dois minutos mais tarde.

“Dois cachorros-quentes  no capricho!”, o cara da barraquinha reverencia os seus dois fregueses. “Cinco e setenta.”

Tatá olha para Jheny com aquela velha cara de cara malandro, passa a mão pelo bolso e diz:

“Amor eu esqueci a minha carteira.”

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