segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Literatura de Primeira em “Os Insones”



Autor: Jonas da Cruz Amaral

O cenário do livro Os Insones, escrito pelo guitarrista e compositor dos Titãs, Tony Bellotto é composto por um Rio de Janeiro violento e dominado pelo tráfico. Uma cidade onde a selvageria além de sobrepujar o morro e determinar as regras a serem seguidas, conquista o coração e a mente dos adolescentes, como acontece com Samora Machel, um garoto negro que abandona seu apartamento confortável num bairro nobre do Rio de Janeiro, para na favela tentar um contato com um soldado das Forças Revolucionárias da Colômbia, Perro Blanco, que veio ao Brasil fechar negócio com Mara Maluca, uma adolescente analfabeta, chefe do Morro do Café (onde se passa boa parte da trama), que assusta os moradores da favela e os seus inimigos (outros traficantes e a polícia) pela sua desumanidade. 

Para desespero de Renato Pelegrini (um importante publicitário) e Lílian (uma paisagista), Sofia, a filha adolescente do casal está desaparecida. Renato ficou sabendo do incidente em Paris, onde passava as férias com Mônica, sua atual esposa e veio às pressas para o Brasil.

Sofia, uma jovem de classe média alta, que tinha como Samora, seu namorado, uma inclinação para atos revolucionários e que lia o Diário de Che na Bolívia. Uma menina idealista que participava de manifestações revolucionárias. E foi em uma dessas manifestações, em Porto Alegre, que conheceu Samora.

Em uma narrativa eletrizante e contagiante, de fácil compreensão e tocante, Bellotto relata em Os Insones, o seu melhor livro, uma sociedade lambuzada pela brutalidade e pela inquietação. Uma sociedade insone, angustiada com a violência.

Samora, para ganhar a confiança de Mara Maluca se viu obrigado a matar um homem, um estuprador, que mais tarde descobriu ser o seu pai, que abandonou a sua mãe ainda grávida. 

O livro Os Insones, a obra-prima de Tony Bellotto, é um retrato moderno do livro Capitães da Areia, do saudoso escritor baiano Jorge Amado. As situações abordadas pelos escritores, apesar de serem de épocas diferentes, e de terem escrito seus livros em contextos que na teoria seriam diferentes, são parecidas. Crianças, adolescentes, que não tiveram uma oportunidade na vida, que entraram no mundo do crime. O “nome” que Bellotto dá a alguns de seus personagens (Vaca, Pelinha, Anjo...) lembra os “nomes” que Jorge Amado batizou os seus personagens em Capitães da Areia (Pirulito, Sem-Pernas, Professor...).

Samora Machel é uma mistura da inteligência do Professor com a coragem de Pedro Bala, sendo esse último, como Samora na obra de Bellotto, o personagem principal na obra citada de Jorge Amado.  

O que cativa nessa obra de Bellotto é o tempero idealista dado aos personagens. Samora queria aprender com as Farc, queria mudar o mundo.

A maneira como o texto é “depositado” no papel – digo a diagramação do texto – ajuda muito na hora da leitura. Bellotto magistralmente sabe prender o leitor, fazendo uso dos períodos e capítulos curtos, dando assim valor ao precioso tempo do leitor.

Arthur Schopenhauer já dizia, acertadamente por sinal, que um bom escritor é aquele que escreve pouco, com coesão, pois quem sabe não precisa de muitas palavras para expressar aquilo que sabe. E o guitarrista que se aventurou no mundo da Literatura é um exemplo vivo disso. Nesse livro, escrito na linguagem coloquial, Bellotto é quase um sociólogo, devido à maneira como ele olha aos problemas atuais da sociedade – violência, falta de oportunidades, trafico de drogas, o sonho dos adolescentes de mudar o mundo... 

Eis um trecho do livro, um cartaz escrito por Samora, a mando de Mara Maluca, que se encontra na página 83 (Companhia das Letras):

“Temos nossas próprias leis, o Estado está desmoralizado. Não aceitaremos imposições. Queremos igualdade social, respeito e dignidade. Oportunidades. Queremos poder para determinar o destino de nossas comunidades negras e oprimidas.”.

Acima está a realidade da nossa sociedade: um Estado desmoralizado e corrompido, do qual não esperamos mais nada. Eis aí uma crítica enérgica feita pelo autor ao Estado.

Não vejo pontos negativos em Os Insones, por Tony Bellotto narrar a realidade, nua e crua, tal qual ela é, sem fazer floreios. Nesse livro Bellotto atinge a sua maturidade como escritor.

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