sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O Relógio

Autor: Jonas da Cruz Amaral

“O jogo começa agora Erasmo”, disse o meu parceiro. “É difícil de acreditar que esse cara tenha conseguido fugir daqui. É impossível! Eles são vigiados vinte e quatro horas por dia. Olhe lá fora. O que você vê?”

Para o meu parceiro todo caso policial é um jogo mental. Como uma partida de xadrez, por exemplo. Vence o melhor. O mais esperto. Paulo orgulhava-se de ser um excelente jogador de xadrez, e eu não. Gabava-se por conta disso.

Mas eu prefiro anotar em meu diário os progressos das nossas investigações. 

“Vejo um monte de guardas com rifles nas mãos. Estão fazendo a ronda do presídio. Porra, Paulo. Que pergunta mais besta. Quem você queria que trabalhasse em uma penitenciária de segurança máxima? Prostitutas para aliviar a tensão desses filhos da mãe? Prostitutas para amenizar o ódio deles perante a sociedade? Claro que eu vejo guardas, que rodam de um lado para o outro, empunhando rifles. O que mais eu poderia ver? Também acho impossível o nosso homem ter fugido daqui sem uma ajudinha. São mais de quatro metros de muro com sistema elétrico de 15000 volts. Suficiente para fritar o engraçadinho que tentar escapar.”

“Concordo plenamente. O nosso homem recebeu ajuda. Os guardas podem ter facilitado a fuga dele. É como você mesmo disse quando chegamos aqui: ‘Os guardas podem ter colocado o Bruce pra fora’. Segundo o diretor do presídio, não houve nada de anormal ontem à noite, quando o nosso homem fugiu. Tudo estava tranquilo. Às quatro horas da tarde os detentos dirigiram-se para o pátio. Jogaram futebol e se exercitaram. Depois, às cinco horas da tarde, todos voltaram para as suas celas. Inclusive Bruce, o nosso homem.”

“Vamos dar uma olhada na cela onde o Bruce estava preso”, eu não via a hora de sair daquele local. Aquela penitenciária estava embrulhando o meu estômago.

Essa sensação de estar preso não me agrada muito.

Subimos uma longa escada em caracol. Ao chegar ao andar superior, aproximamos os nossos distintivos da porta computadorizada, que se localizava ao final do corredor.  Ela reconheceu e a luzinha ficou verde. Paulo empurrou a porta com um pequeno grau de violência. Eu passei a mão direita pelos cabelos e entrei em seguida.   

“Não se preocupe Erasmo. Nós vamos embora daqui a pouco. Agora vamos nos concentrar no caso”, Paulo ainda mascava o seu chiclete. Segundo ele, era para suavizar a rotina. “O que nós temos?”

Abri o meu caderninho de anotações.

“Temos o depoimento do diretor da penitenciária e dos seis guardas responsáveis pela segurança do andar superior. Olha o que eu achei! Isso é de suma importância para o caso. Geralmente as pistas demoram a aparecer. Mas essa aqui estava na cara.”

Eu e o meu parceiro tínhamos acabado de entrar na cela de Bruce. Vazia. Nenhuma alma viva. Segundo o diretor da penitenciária, Bruce era o detento mais violento do presídio. Desde que chegara a PSM, Prisão de Segurança Máxima, havia matado sete companheiros de cela, e dois guardas em uma tentativa coletiva de rebelião. Nove mortes assinadas por ele em dois anos e meio de detenção. 

“Mas de quem seria esse relógio?”, perguntou o meu parceiro.

“É o que vamos ter que descobrir. Esse relógio está ligado ao caso. Quanto a isso não existe dúvida. Mas ele pertence a alguém da alta sociedade. Alguém que tem grana. Talvez algum político. Não é qualquer um que possui um legítimo Rolex, meu amigo.”

“Parece que esse relógio foi colocado aí”, observou Paulo, olhando para o Rolex ainda no chão, dentro da cela de Bruce.  “Repare que ele está intacto. Nem um arranhão na pulseira nem no vidro.”

“E a pulseira não está danificada. O relógio permanece unido a ela. Obviamente não poderia ter se soltado do pulso de alguém.”

“Isso é óbvio, parceiro”, Paulo disse em seu característico tom de brincadeira. Claro que eu também estava brincando quando disse que o relógio não poderia ter se soltado do pulso de alguém. Qualquer imbecil perceberia isso ao ver que as duas extremidades da pulseira estavam ligadas ao relógio. “Me diga uma coisa Erasmo. Será que não é melhor a gente pegar esse relógio e mandar para a Criminalística? A Susan vai saber exatamente o que fazer com ele.”

“Vamos observá-lo por mais alguns instantes”, retirei a câmera fotográfica de dentro do bolso interno do paletó e tirei umas fotos do relógio. Em diversos ângulos. “Você está com pressa? Sherlock Holmes disse certa vez que as primeiras horas de uma investigação são as mais proveitosas. Você saberia disso se tivesse lido o livro que eu te dei ao invés de se abanar com ele.”

“Esse negócio de leitura nunca foi o meu forte. O único livro que eu me recordo de ter lido é um manual de auto-escola. Prefiro malhar. O meu corpo impõe respeito. Os meus músculos estabelecem autoridade. Olha para mim e me diga: eu não pareço com o Sylvester Stallone?”

“Sem sombra de dúvidas. Você e o Stallone parecem ser irmãos.”

Guardei cuidadosamente o relógio dentro de um saco plástico. Retirei as luvas. Em seguida eu e o meu parceiro fomos surpreendidos por vários tiros.

Dei dois tiros com a minha Colt. Acertei um deles bem na testa.

“Na mosca, Erasmo!”, Paulo vibrou como se o Flamengo tivesse feito um gol. A frase seguinte veio com desespero. “Temos que sair daqui!”

Sair dali. Era o que eu mais estava querendo naquele momento.

Mas estávamos cercados. Cerca de quinze guardas, todos prontos para arrancar as nossas cabeças. Eles estavam crescendo como o gol cresce para o goleiro quando há um pênalti para ser convertido. Por que esses filhos da mãe estavam atirando na gente? Não preciso nem explicar. Vocês, caros leitores, e caras leitoras, já devem estar sabendo o motivo. Eles efetuavam uma queima de arquivo.

Ok. Mas não seria tão fácil assim.

“Vocês não têm a mínima chance” gritou um deles. “Rendam-se ou morram. É o fim de vocês. Aqui a Lei somos nós.”  

“Dane-se!”, eu gritei. Eu e o meu parceiro continuávamos correndo e trocando tiros com os malditos guardas.

Recarreguei pela terceira vez a minha Colt. A minha testa suava. Dei três tiros. O que aconteceu depois foi um milagre. Uma intervenção divina. Realmente não tínhamos escapatória. Toda a penitenciária estava cercada. Aguentaríamos no máximo mais uns dois ou três minutos. Não mais do que isso. O Paulo já estava sem munição e eu já estava na metade do meu último cartucho. Foi quando uma rebelião aconteceu. Eu e o meu parceiro aproveitamos essa confusão e caímos fora daquele inferno.

Sabe de quem é o relógio que foi encontrado na cela do Bruce?

Ainda não sabemos.

A investigação continua...

Se a máfia deixar eu e o meu parceiro em paz, continuo os relatos.

Ao contrário: se ela insistir em nos matar. Dêem essas anotações por encerradas.

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